Desde que nasci, o rádio sempre esteve presente em minha vida.
Embora sempre tivéssemos televisão em casa, o rádio era o eletrodoméstico que mais ficava ligado — só perdia para a geladeira. Era a trilha sonora da casa, todos os dias, o dia inteiro.
Tenho inúmeras lembranças relacionadas a ele: minha mãe ouvindo a programação local no rádio-relógio cinza da Semp Toshiba; meu pai acompanhando o Djalma Jorge Show no Gradiente S-95 da sala; meu vô ouvindo futebol em seu Motoradio portátil — com direito à capinha de couro com botão; minha vó “abençoando” um copo d’água em frente a outro Motoradio, enquanto acompanhava a mensagem do Papa João Paulo II antes do almoço...
Sempre fui apaixonado pelo formato. Costumava comparar o rádio portátil a uma lanterna: bastava colocar as pilhas e se divertir com algo “intangível”. Além disso, ouvir rádio nos faz projetar mentalmente tudo o que está sendo transmitido. Cada voz, cada ambiente, cada situação ganha uma imagem própria na cabeça de quem está ouvindo.
No caso da minha cultura musical, o rádio foi imprescindível. Em casa, não tínhamos muitos discos de vinil — e os CDs ainda nem existiam. Então, o jeito era colocar o tape deck para trabalhar e gravar as melhores músicas da programação de alguma emissora.
Ainda criança, eu já improvisava para registrar minhas músicas preferidas. Se não conseguisse gravar no tape deck da sala, ligava o som no tuner, pegava o gravador portátil National Panasonic da minha mãe, colocava-o diante dos alto-falantes e torcia para ninguém aparecer falando no meio da gravação (risos).
Se, por um lado, esse método não era o ideal para registrar as músicas com fidelidade, por outro, permitia muitas brincadeiras.
Junto com minha irmã do meio, criei uma rádio fictícia chamada Spectrus FM. O nome foi inspirado em algo que sempre me encantou visualmente nos aparelhos de som antigos: o analisador de espectro.
Acionávamos o gravador portátil e, manualmente, baixávamos o volume das músicas no aparelho 3 em 1 para fazer as locuções. Também ficávamos “caçando” situações nas emissoras reais que pudessem ser aproveitadas em nossas gravações.
Invariavelmente, apertávamos o botão de gravar quando alguém ligava para uma rádio pedindo uma música. O desafio, então, era acertar o timing da conversa e responder como se estivéssemos realmente falando com aquela pessoa. A diversão era garantida.
Também simulávamos sorteios de cartas dos ouvintes, criando efeitos sonoros com papel velho. E até inventamos um funcionário imaginário de estúdio chamado Marcelinho Capixaba (risos).
Foi nessa época que comecei a vislumbrar o quanto seria maravilhoso ter um programa de rádio. Não como um objetivo profissional, mas como algo que eu faria por puro prazer. E essa ideia nunca mais saiu da minha cabeça.
No início dos anos 2010, as rádios comunitárias estavam bombando em inúmeras cidades. Curitiba era uma delas. Havia quase uma rádio comunitária em cada bairro. Embora várias tenham sido utilizadas politicamente, muitas conseguiram cumprir muito bem, durante anos, o papel a que se propunham: dar voz às comunidades locais.
A emissora comunitária que eu mais ouvia era a Rádio Comunitária do Boqueirão (RCB FM). Aos sábados, meu amigo Benedito César, da Discos Raros, apresentava o programa Zum Make To Rock. A transmissão era ao vivo, tanto no dial quanto no site da rádio, e os ouvintes podiam interagir por meio de um chat. Smartphones e WhatsApp ainda não faziam parte do nosso cotidiano.
Nessa época, mudei-me para Araucária em razão do trabalho. Lá, havia uma rádio comunitária chamada Gralha Azul. Inspirado pela RCB e indignado com o fato de não existir um único programa de Rock na cidade, resolvi conversar com o diretor da emissora — cujo nome, infelizmente, já não lembro.
Ele foi bastante receptivo e me pediu que levasse um projeto.
E qual era o nome do projeto que criei?
Rock Tonight!
Paralelamente, este blog estava bombando. Em razão da repercussão de uma coletânea de raridades que criei por aqui — alguém se lembra? —, recebi convites para trabalhar em duas rádios da web.
Infelizmente, não pude aceitar.
Meu ritmo de trabalho não me permitia assumir nada que fugisse da rotina. Eu era o rei da hora extra. Agora, imaginem conciliar isso com uma filha recém-nascida em casa...
Então, minha vida virou de ponta-cabeça.
Na sequência, passei pelos anos mais difíceis dela. Voltei para Curitiba. Muita coisa mudou.
Recentemente, envolvi-me na criação de uma rádio web: a Estação 512.
E essa foi a oportunidade perfeita para desengavetar o projeto Rock Tonight.
Nos últimos sábados, venho realizando testes com o formato definitivo do programa, que terá duas horas de duração. Até aqui, o resultado tem sido bastante satisfatório.
Nesta semana, ampliamos a divulgação da rádio.
Em tempos de streaming, criar uma rádio web talvez não pareça uma ideia brilhante. Mas oferecer uma programação cuidadosamente selecionada é, acima de tudo, um ato de respeito a quem procura fugir da mesmice — dos algoritmos repetitivos, das playlists previsíveis e da sensação de que todas as músicas são sempre as mesmas.
A proposta da Estação 512 é simples: oferecer uma programação com identidade, variedade e curadoria. Uma rádio feita por quem ama música e para quem ainda acredita que ouvir uma emissora pode ser uma experiência.
Sejam bem-vindos(as) à Estação 512 e ao Programa Rock Tonight.
Se o apaixonante dial não pôde ser a nossa casa, que seja o streaming — mas um streaming com curadoria, personalidade e paixão pela música.
Na era do gosto duvidoso, somos a resistência! 🤘📻
Acesse: https://www.estacao512.com.br







