17 de junho de 2010

WE WILL ROCK YOU

Do Site da ESPN Brasil:
 
“Você veio de longe para conversar com o velhinho aqui?”, pergunta Brian May, o legendário guitarrista do Queen, sentado em um teatro no centro de Londres. A resposta é sim. Na verdade, estou um pouco irritado com o velhinho May. Mais especificamente, estou irritado com o que ele criou inconscientemente. Passei uma boa parte da minha vida em eventos esportivos – de jogos de hóquei universitário ao Super Bowl – e em todos os estádios a música pop não para de tocar nos alto-falantes. Não importa se a música tem uma letra brilhante ou é um verdadeiro lixo, ou se está relacionada ao esporte. Não importa se o artista é um deus do rock ou só tem um sucesso. Se é agitada, toca, e de alguma forma a musica se tornou sinônimo dos jogos tanto quanto uma Bud Light de US$ 12.

Coloco a culpa em May. Por quê? Bom, há uma lista das músicas mais tocadas nos eventos esportivos norte-americanos, compilada pela BMI, empresa de licenciamento. No primeiro lugar em 2009 estava a onipresente “We Will Rock You”, que May compôs há três décadas em um quarto de hotel na Inglaterra. Depois de todos esses anos, é impressionante vê-la reinar absoluta. É tão básica e simples, dois minutos e um segundo de duas batidas seguidas por palmas, sobrepostas pelos vocais poderosos de Freddie Mercury. “We Will Rock You” é um hit, e como qualquer música tocada repetidamente (e bota repetidamente nisso), pode começar a ficar um pouco cansativa – exceto, claro, quando é perfeita para o momento, como quando o time da casa derruba o quarterback.
 
Assim, em uma noite de janeiro, voei sobre o Atlântico ouvindo “We Will Rock You” várias vezes, esperando desenterrar um significado oculto, mas, no final, simplesmente fiquei com a música grudada na cabeça. Ainda penso nela quando entro no táxi para encontrar Brian May no Dominion Theatre, onde o musical “We Will Rock You” está em seu oitavo ano. Sou levado a uma suíte particular e recebo um programa do espetáculo, que folheio enquanto acontece a checagem de som. A batida e as palmas ecoam em meus ouvidos. Então, quando May entra, meu primeiro pensamento não foi o de que estou ante o 39º melhor guitarrista da história, de acordo com a Rolling Stone, ou de que May está no Hall da Fama e vendeu mais de 300 milhões de álbuns. Só quero saber por que raios ele fez isso conosco.
 
Faça um favor a você mesmo. Entre no YouTube e procure “You’ll Never Walk Alone”, dos jogos do Liverpool. Relaxe e aproveite um dos momentos mais bonitos em um evento esportivo: 45 mil pessoas de pé, balançando bandeiras e cantando em uníssono. Alguns torcedores estão dolorosamente fora do tom, mas todos no estádio bradam com a mesma intensidade que os jogadores exibem em campo, solidificando o laço que supostamente existe entre torcedor e time. Isso sim é música de estádio.
 
É diferente nos Estados Unidos, onde os DJs apertam o play o tempo inteiro, não apenas para levantar as multidões (“Tubthumping”, do Chumbawamba), mas também, às vezes, para acalmá-los (qualquer coisa da Susan Boyle). Nossa necessidade por essas músicas está enraizada em uma emoção misteriosa. Somos superficiais? Ficamos entediados facilmente? Cantar em uníssono não é a nossa? Ou será que há alguma coisa em cada música que ajuda a nos conectarmos com nós mesmos e com os outros, assim com o esporte faz?
 
Seja qual for o motivo, servimos nosso público. Os DJs da NBA animam a multidão de quarentões urbanóides com hip-hop. Os torcedores da NFL, também na casa dos 40, mas menos diversificados, ouvem hard rock. Os da NHL, um pouco mais velhos, ouvem majoritariamente rock clássico. O beisebol atrai a multidão mais diversa, toca de tudo. Os artistas, e às vezes até suas reputações, são irrelevantes. Por quase 20 anos, os torcedores do Denver Broncos comemoraram touchdowns com “Rock and Roll Part II”, de Gary Glitter (aquela que só repete uma palavra: “Hey!”). Em 2006, Glitter foi condenado a três anos de prisão no Vietnã por molestar crianças. Os Broncos pararam de tocar a música, mas o time recebeu uma enxurrada de ligações até que “Part II” voltasse aos toca-discos.
 
Ninguém sabe ao certo quem tocou a primeira música em um evento esportivo. A tradição de “Rock and Roll Part II” data de 1974, quando Kevin O’Brien, um DJ de Michigan, pegou o disco de sua própria coleção e começou a tocá-lo nos jogos do Kalamazoo Wings na International Hockey League. Alguns anos depois, quando O’Brien foi contratado pelo Colorado Rockies (agora New Jersey Devils), da NHL, levou a música com ele. Agora, o entretenimento nos estádios virou uma indústria. Existe até um site do setor chamado Pro Sports DJs, no qual apenas os profissionais empregados podem fazer login; 578 estão registrados, incluindo praticamente um para cada time grande dos EUA. Eles podem se informar sobre os novos sucessos da música pop ou conversar em fóruns dedicados à sua arte, como “clipes para lances livres” ou “músicas enquanto a chuva não passa”.
 
Independentemente de esses profissionais serem funcionários em tempo integral ou contratados por jogo, seus trabalhos são sempre peculiares. Em vez de surpreender o público com raridades, como em festas, os DJs de esporte têm o objetivo de garantir aos torcedores músicas reconhecíveis. “Você tem de tocar músicas que a multidão quer ouvir”, diz Anthony Johnson, DJ na NBA para o Dallas Mavericks. Na maior parte do tempo, isso significa se prender ao que é certo: “Na Na Hey Hey Kiss Him Goodbye”, do Steam, ou “The Final Countdown”, do Europe. A regra geral é: seja esperto por sua conta e risco.
 
A maioria dos DJs tem uma seleção de músicas para cada situação. Teresa Shear, diretora dos Broncos para entretenimento em dias de jogo, mostra uma lista de músicas que, em termos de detalhes, rivaliza com a folha de jogadas utilizada pelo técnico principal, Josh McDaniels. São 18 momentos diferentes no jogo e seu acompanhamento musical adequado, de defesas (“This Is How We Do It”, de Montell Jordan) aos touchdowns do oponente (“We’re Not Gonna Take It”, do Twisted Sister). Gregg Greene, diretor de marketing do Seattle Mariners, toca “I Want to Walk You Home”, de Fats Domino, após uma caminhada cheia de bases. Quando os punhos vão ao céu durante um jogo do Detroit Red Wings nas tardes de domingo, Ayron Sequeira toca “Sunday Bloody Sunday”, do U2. Se um jogador do Dallas Mavericks faz uma falta em um jogo em casa, Johnson o manda para fora do campo com “There Goes My Hero”, do Foo Fighters.
 
Quando May e eu começamos a conversar, minha irritação com ele desaparece rapidamente. Ele é legal, educado, inteligente (o guitarrista de 62 anos conquistou recentemente um Ph.D. em astrofísica). Passou a vida toda obcecado com matemática e música e nunca foi fã de esportes. Não fazia a menor ideia de que “We Will Rock You” é o hino mais tocado nos estádios dos EUA até eu lhe contar. Mesmo assim, o erudito guitarrista-compositor-astrofísico tem teorias sobre por que a música se tornou tão penetrante nos jogos norte-americanos. “Provavelmente vou arranjar encrenca se disser isso, mas os Estados Unidos parecem ter se tornado tão amedrontados”, diz. “As pessoas não parecem confiar em mais ninguém. Talvez a música seja necessária para recuperar uma sensação de orgulho. O esporte oferece uma fuga para as pessoas, faz elas se sentirem fortes, poderosas e otimistas. A música é um ótimo reforço.”
 
O engraçado é que May não compôs “We Will Rock You”, em 1976, para fazer as pessoas se sentirem fortes, poderosas e otimistas, e seu refrão, no contexto, não é uma chamada à união, como milhões de fãs de esportes interpretariam mais tarde, mas, sim, uma reafirmação pessoal. Brian May foi inspirado por uma canção de ninar popular tcheca na qual os pais prometem embalar o filho até dormir – “We will rock you, rock you”. Ele mudou a frase para “We will, we will rock you”, a colocou em harmonia com uma batida-batida-palma que carregava na cabeça e finalizou a música. Uma das mais famosas de todos os tempos, o hino de esporte de uma geração norte-americana, demorou dez minutos para ser escrita.
 
Anos mais tarde, no único evento esportivo que assistiu nos EUA, May testemunhou em primeira mão o que havia criado. Em 1990, ele estava em Chicago e foi a um jogo Lakers-Bulls, querendo ver Michael Jordan e Magic Johnson. Durante o jogo, May ouviu uma batida familiar e um eco ressoando dos assentos. Olhou para cima e viu seu rosto no telão. “Fiquei muito impressionado com a participação do público”, conta. “A música tinha se transformado em algo maior.” Ela tinha se tornado nossa.
 
Há muitas vantagens em compor um hino de esporte, embora estar no meio da multidão quando sua música é tocada não seja uma delas. James Hetfield, vocalista do Metallica, estava em um jogo do Oakland Raiders quando o riff de guitarra clássico de “Enter Sandman” soou dos alto-falantes. As pessoas se viraram para encará-lo. “Foi embaraçoso”, conta. “Fiquei tipo ‘Não fui eu quem apertou o play!’” Mas assistir aos jogos também pode ser bom. Foi assim que Frankie Sullivan, ex-guitarrista do Survivor que co-escreveu “Eye of the Tiger”, conheceu Muhammad Ali, sem contar dezenas de fãs cujos nomes não consegue lembrar. Nos anos 80, quando o hit estava no auge de sua popularidade (foi composta como tema de Rocky III), as mulheres procuravam Sullivan nos estádios. “Gostava de pensar que talvez elas se sentissem atraídas por mim”, diz agora, “mas era por causa da música.”
 
“Bang the Drum All Day”, clássico de arena de Todd Rundgren, originalmente não deveria ter se tornado um single. Ele não gostava da música, que apareceu no álbum The Ever Popular Tortured Artist Effect, de 1983, nem sua gravadora. Só que um DJ do Green Bay Packers começou a usá-la em meados dos anos 90 e, pouco depois, o St. Louis Rams se apropriou dela. “Essa música”, afirma Rundgren, “é como um filho que não vai muito bem na escola, mas de repente consegue um ótimo emprego, e você se sente como um pai pasmo.”
 
E o filho está ganhando bastante dinheiro também. Agências de licenciamento calculam e distribuem o pagamento pelos hinos do esporte. O calculo é complicado, baseado no número de vezes em que a música é tocada, no número total de pagantes no jogo, ou em um valor fixo que um time pode pagar. Fato é que artistas cujas músicas estão em alta rotação ganham facilmente um valor na casa dos seis dígitos por ano. Como Ian Dench, guitarrista do EMF, que compôs “Unbelievable” em 1990, diz: “Essa música coloca comida no prato da banda há muito tempo”.
 
May tem um arquivo na biblioteca de seu iTunes dedicado a covers de “We Will Rock You”, pelo menos mais de cem. Ele abre o laptop, rola através delas e, por um momento, fico preocupado de que vá tocar todas. Mas ele clica em apenas uma, uma versão sinfônica do grupo E.S. Posthumus, que pode fazer parte do entretenimento do Super Bowl neste ano. Embora seja superproduzida e cansativa, ainda é potente, pegajosa e, o mais importante, uma força de união em sua própria e estranha maneira, porque May e eu batemos os pés.
 
Ele compôs o canto para agradar aos fãs do Queen, mas o que realmente fez foi criar uma comunidade instantânea. É por isso que o Exército norte-americano usa “We Will Rock You” antes de enviar as tropas para a batalha, ou por que os políticos a tocam nos comícios. Nem sempre May gosta de como ela é usada – especialmente pelo Exército – mas sabe que é impotente. “Quando você divulga uma música”, conta, “diz adeus a ela.”
 
É então que descubro: Brian May não é o culpado por sua música dominar nossos eventos esportivos. Nós somos. Fizemos isso a nós mesmos. Nós é que precisamos do poder da música para formar uma comunidade, porque, vamos falar a verdade, nossos jogos não são mais o suficiente.
 
Estamos constantemente no Twitter, checando nossos times de fantasy league, mandando mensagens de texto ou admirando a arquitetura dos estádios. Os DJs de esporte não estão arruinando o jogo – estão tentando salvá-lo, ao nos fazer lembrar o que é importante. E nenhuma música prende nossa atenção mais rapidamente do que algumas batidas de “We Will Rock You”. Na verdade, quando Loomis a toca nos jogos do Wild, nunca tem de terminar a música – simplesmente aumenta o volume até ver o público se levantar, batendo os pés e as mãos. Então, abaixa o som, desfrutando os preciosos segundos quando nada precisa ser fabricado.
  

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