16 de agosto de 2012

PERCEBEU A DIFERENÇA?

Excelente matéria publicada no Instituto Ciência Hoje do portal Universo Online no fim do mês passado. Vale a pena conferir:

Por Celio Yano

Pessoas mais velhas costumam dizer que já não se faz mais música como antigamente. Estudo realizado na Espanha e publicado na semana passada (26/7) na revista Scientific Reports dá certa razão a elas.

Após analisar quase meio milhão de músicas populares do Ocidente – com ajuda de um computador, é claro –, pesquisadores descobriram que, apesar de haver padrões que se repetem em canções compostas entre 1955 e 2010, algumas características mudaram ao longo desse período. A saber: o volume das gravações é cada vez maior, a variedade de passagens de acordes é mais restrita e a complexidade instrumental, menor.

Substituição do disco de vinil por suportes digitais como o CD pode ter contribuído 
para a tendência de volumes cada vez maiores das músicas. (foto: Roger Kirby/ Sxc.hu)
Para os autores do trabalho, essa descoberta sugere que nossa percepção sobre o que é novidade na música pode ser guiada pelas mudanças nessas características. Por outro lado, há aspectos que se mantêm inalterados em composições populares das últimas cinco décadas. O mais notável é o uso de acordes (conjunto de notas) – ré menor com sétima (Dmin7), por exemplo, aparece em canções atuais com a mesma frequência que nos anos 1960.

“Se em uma nova composição tudo mudasse, não conseguiríamos associá-la a música – seria talvez apenas um ruído”, diz o engenheiro espanhol Joan Serrà, do Instituto de Pesquisa em Inteligência Artificial, do Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha (IIIA-CSIC, na sigla em espanhol), um dos responsáveis pelo estudo.

“É preciso haver uma referência para os ouvintes basearem suas expectativas sobre o que está por vir; ao mesmo tempo, se eles souberem de antemão tudo o que vão ouvir, perderão o interesse pela música”, acrescenta. Para Serrà, a música é “um delicado balanço entre previsibilidade e surpresa”. A evolução musical ao longo da história refletiria essa receita.

Ajuda de computador

As informações sobre as canções foram obtidas do banco de dados Million Song Dataset, que, como o nome diz, reúne dados sobre um milhão de músicas populares contemporâneas. O estudo se baseou, mais precisamente, em 464.411 dessas gravações, todas com informações catalogadas sobre volume, frequência e timbre.

Gráficos mostram forma de onda de três diferentes gravações da música 'Black and White', de Michael Jackson: a primeira (acima), do álbum 'Dangerous' (1991); a segunda (no centro), de 'HIStory' (1995); e a terceira (abaixo), de 'The ultimate collection' (2007). Aumento progressivo do volume da música pode ser observado pela amplitude cada vez maior das ondas sonoras. (imagem: Song Yanbo/ Wikimedia Commons)
As músicas utilizadas na pesquisa pertencem a gêneros diversos, como rock, pop, hip hop, metal e eletrônico, e demorariam mais de três anos e três meses para serem ouvidas caso fossem executadas de forma contínua.

“Transformando uma grande quantidade de músicas em números que posteriormente são analisados por computador, podemos aprender muita coisa sobre as músicas que antigamente seria impossível notar”, explica Serrà. “Podemos compreender as canções de um modo que os ouvidos humanos não podem.”

Tendências

Uma das mudanças que vêm ocorrendo ao longo das últimas décadas que mais chama a atenção diz respeito ao volume das gravações, que é cada vez maior. Essa tendência já era aventada e tem até nome – loudness war (guerra do volume) –, mas até hoje não havia sido comprovada cientificamente.

A explicação é que as gravadoras procuram produzir discos com amplitude sempre mais elevada por considerar que uma canção com volume menor atrairá menos interesse do público. A atitude é criticada por fãs de música, porque, por outro lado, provoca distorções no áudio.

O fenômeno começou a ser mais bem observado nos anos 1980, com o advento do CD, que, diferentemente do disco de vinil e da fita cassete, armazena as gravações em formato digital. Nos meios analógicos, o aumento do volume não provoca grandes prejuízos à música, mas no suporte digital a gravação de sons com amplitude maior resulta em perda de qualidade.

Outra diferença observada pelos pesquisadores entre as canções antigas e as atuais é a variedade de passagens de acordes. “Por exemplo, em 1962, havia cinco possibilidades de transição a partir de Dmin7. Em 1999, só encontramos quatro.”

Finalmente, há uma mudança relacionada ao timbre (característica sonora que permite distinguir sons de mesma frequência produzidos por fontes diferentes). Segundo Serrà, as músicas estão mais ‘pobres’ em termos de variedade de instrumentos e técnicas de gravação, o que resulta em ‘texturas musicais’ mais simples. “A paleta timbral é mais estreita hoje do que há 50 anos.”

Para o pesquisador, as tendências descobertas objetivamente podem ser consideradas uma receita para se fazer uma música que soe como original. “Uma faixa antiga pode perfeitamente parecer moderna desde que se baseie em progressões harmônicas comuns e tenha a instrumentação alterada e o volume elevado”, diz.

 

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